segunda-feira, março 11
Filhos, por quê não tê-los?
quinta-feira, fevereiro 16
EU E O TEMPO
a toalha branca sobre os altares da humanidade,
Tempo de preparo, de colheita, vida comum,
quinta-feira, fevereiro 2
Passei pelo destino pela porta daqui,Caí de dentro de um sonho,
Pulei do ciclo medonho,
escorreguei e fugi...
Passei pelo desvio da estrada estranha,
Pulei os trilhos do trem,
Caí pelos becos do além,
Driblei e desisti.
Passei pelo plantio dos meus canaviais,
Torci-me entre os males do tempo,
Enxuguei-me entre lágrimas e contento,
Me molhei, quis tossir.
Mas nunca voltar!
De volta a varanda, trouxe a brisa do Ibirapuera. Era cedo, ou tarde, não dormi direito, mas me embrenhei e conheci caminhos novos - amiga de grande porte me guiava...
Já havia decidido voltar e não sabia por onde começar. Faltava uma senha, um sopro, uma imagem, um anjo talvez...
Tenho muito a dividir aqui. Trata-se de uma nova passagem, do mesmo lugar que vos fala, da mesma garganta engasgada precisando urrar ao mundo - agora de dedos trêmulos por não saber mais escrever direito, como vêem. Mas o mico está na cabeça de quem se sente nele - ouvi ainda hoje. Melhor não ter medo de arriscar. Os dedos assim como as pernas, os braços, o abdome... podem treinar-se novamente a abafar o cérebro (?) agora mais cansado e o coração pleno que moldei.
Sim, estou viva!
Aos antigos leitores da varanda, poesia só para correr riscos de suas críticas... Mas tenho um monte de verdades a seres ditas entrellinhas de entre as linhas de meu rosto. Sim, envelheci. Mas não totalmente. Talvez o que eu proponha seja ser lida por olhos também mais amadurecidos e isto talvez (torço para que não) requeira menos beleza. Estou aqui para desafiar o tempo e talvez provar que há para trabalhar a beleza com o mesmo tempo em que e com que ela (a beleza) se foi... Não exijam menos... Torçam apenas.
Agora, depois daquele tiro no canhão na torcida; depois de tantos lamentos e poemas lindos de tristeza, numa fase bem mais calma, serena, diria com todas as letras - f e l i z de minha vida, vou narrar os bastidores do meu sucesso (para alguns) e de meu fracasso (para tantos outros). Mas vou esgotar os bastidores porque aprendi em casa - esta ou aquela - que isto faz muita diferença.
Diferente estou, inteira, sobrevivente de guerra, diria que endorfinada pela vida...
Diário? Não. Apenas os dados que bem dirigidos trouxeram as cenas mais belas e... se antes eu escrevia triste o que era lindo, talvez agora eu digite certeira o que me faz feliz até porque o certo sai mesmo por linhas tortas... Mas sai. Para nunca mais voltar...
Marcelle Sá - 02/02/2012.
sábado, abril 11
Ode a noite!

Porque o mistério da vida está em acordar e ver O SOL PREGUIÇOSO DA MANHÃ. Os raios meio que de lado, fingindo que estão dormindo, esperando eu acordar. O SOL, doido pra me ver e mais: para ser percebido!
Ontem me aborrecera porque ele se foi e tem que ir sempre, mesmo quando me abro e o sinto dentro de mim... Mas aí ele volta mesmo quando estou aborrecida com esta ida e volta descabida; com este ensaio repetitivo das ondas que não vão a lugar nenhum; com esta roda nada humorística, que me cansa e afasta da paz que procuro.
Aí descobri que não adiantava mais pedir pra ele ficar mesmo quando eu mais queria, só mais um pouquinho... Porque sempre me contentara assim em não sendo digna de "controlar" um astro tanto tempo...
A partir de então passei a me despedir quando a tarde caía, já com saudade... Sabia que seria em vão, mesmo que eu implorasse, prendesse alguns raios num potinho de ouro ou coisa parecida.
Aprendi que não importa o tamanho da minha dor, o adeus é necessário mesmo que amanhã eu não esteja neste mundo pra ver o mesmo sol, já nascido, me encantar preguiçoso... Não sei se meus olhos leriam esta beleza, se minhas pernas me conduziriam a encontrá-lo lá fora, se minha pele de tão branca se recordaria do ruborizar-se desmedido, bronzeante - diria.
Mas em dias tristes, minha sorte é que anoitece. Não pela crença de que estarei feliz como ontem no novo nascer do sol, mas pelas sensações de passagem e desistência, tão necessárias, tão saudáveis e íntimas.
Por hora apenas me pergunto por que o sol tinha que ser AMARELO!?! A única palavra em inglês que rima com sua tradução na nossa língua, e que despediu-se a tempo dos meus poemas, porque as línguas não se combinavam...
- É que a leitura era outra.
Marcelle.
Imagem: inoutyou.blogs.sapo.pt/70256.htmlsexta-feira, abril 10
sexta-feira, abril 3
Arte na Varanda...

Primeiro, a idéia. Embutida ou explícita, não se sabe. Mas ela incomoda se conservada. Quer sair e romper as barreiras entre o haver e o existir. Emana por tantas células empenhadas em expulsá-las, por pulsos fortes, mãos delicadas e então: a PALAVRA. Naquele vazio do papel cheio de traços... Pronto; nasceu.
Pronto! Voltei a escrever porque voltei a me emocionar... Senão pelos dias cheios de Luz que Deus tem me concebido, pelo amor ao meu trabalho que ainda existe quando não me repele em exaustão, pela natureza quase morta de sensibilidade aflorada nas pequenas atitudes, mas pela ARTE!
Das minhas doídas despedidas, eu sempre volto quando me invocam... E este grupo me invocou esta semana a escrever. Senão pela tristeza da ausência de tudo isto me remete, senão pela natureza sentida ali junto, senão por querer voltar no tempo e me tornar parte de certa forma... ESCREVI.
E escrevendo retomo esta varanda abandonada apenas para dizer que a felicidade existe se soubermos ter olhos para lê-la ao nosso lado, na semelhança que procuramos, na harmonia dos olhares e mais nada!!!
Às minhas amigas Márcia e Juliana, muito obrigada por respeitarem mais este tempo meu! Estou aqui onde sempre estive, com mais saudades do que nunca!
Marcelle.

sexta-feira, janeiro 30
Ainda luto...
witchbel.files.wordpress.com/2007/10/silencioEsperei muito este dia... Lutei muito por este momento, por esse sabor de lágrima feliz regada a realização do que me fez realmente dormir tarde todos os dias durante 3 meses lutando contra o sono e contra minha cabeça que insistia em remeter-se ao som do meu coração. Era o início de um funeral. Fazia muito frio naquelas noites... As músicas que eu escolhia pra me manterem acordada eram inúteis... Fazia muito silêncio nesta casa... Mas era o início de uma guerra. Eu lutei contra tudo e todos por uma prova. EU fazia tudo. Trabalhava, estudava, e velava noites inteiras a sua morte. Você havia morrido, mas eu não havia te matado... Você havia se feito isto e usou requinte de crueldade. Eu seria forte. Ultrapassaria mais uma "parede" em que me esbarrava pela vida.
Pronto! Passou - pensei.
E vivia agora dias tão felizes, meu Deus! Ninguém o sabe, só Ele! Eram as respostas que eu procurava por estes meses de angústia! Findo o ritual (funerário) no meu feliz ano novo, ao fundo letras de "noites traiçoeiras" que me pediam a "calma" que não tive, ultrapassava ontem de presente mais duas barreiras importantes. As algemas no cordão umbilical (minha mãe aqui) e a vitória mais forte e suada que percorri com fé em Deus. PASSEI na tal prova, apesar dos ritos de dor que me fisgavam a alma naquelas noites de guerra. Agora foram dias cheios de "emoções", como diria minha amiga Jú, típicos no meu calendário. Mas atipicamente me surpreendi sim com a velocidade dos fatos que nem vêm ao caso aqui.
Para brindar os momentos, muitas surpresas... E a MAIOR! Para um bom leitor, um bom escritor basta... Desde que se tenha a PALAVRA, não dita, nem escrita... A sentida no silêncio absoluto que só não é alcançado pelo ser humano porque os batimentos do coração seriam então ouvidos, lembra? Quase tudo sem palavra... enquanto eu a tinha! Quase tudo de olhos fechados, porque nos confiávamos. E tudo perdido na visão do que não vi, mas que só agora vejo que causei. Perdi.
Não sei quanto tempo durará meu luto, mas meu silêncio sei. Porque agora o funeral é do meu próprio corpo, da minha própria alma. Aprendi há muito tempo na vida que quando se morre, se silencia de fato. Não simplesmente porque se priva de palavras, mas porque aí silencia o coração também. Vira silêncio absoluto. Nem ser humano e nem verme faz barulho algum. Então a euforia de ontem (180 batimentos por minuto) precedia a "parada" de hoje e eu não sabia. Não sabia o que fazia. Não sabia que trairia a mim, que morro aqui com a minha palavra. Porque eu sou as minhas palavras. Esta era a minha identidade, minha forma de desafogar TUDO. Escrevo desde que me entendo por gente. Traduzo pensar e sentir nisto aqui. Em palavra, substantivo abstrato que me traiu também. Merecia ser enterrada mesmo pra ser concreto tudo o que disse antes de ontem. Enquanto ela existia SIM. Porque não há tradução pra tudo. Porque antes era sentido mais que dito e continuará sendo no silêncio. Porque traduzo minhas emoções em palavras e nem sempre em atitudes. E foram as palavras que ouvi que te tiraram do túmulo. Não suas atitudes. Mas não insisto. Deixo pra cair na prova dos dias sem sentido que percorrerei mais sozinha ainda, mais especializada ainda, mais triste ainda. E sabe o que me surpreende? Não mais a velocidade dos fatos. A ironia. A sensação de bater no vazio, as lágrimas que gritam por dentro, o vazio de não te amar menos (como no seu funeral). Porque a cada minuto cresce este vazio e a dor pelo que fiz. Porque no vazio de mim, desabitado de você não faz silêncio. E agora deixo de dormir e não é por prova. Estou velando. E este ritual vai durar a minha eternidade.
Adeus à varanda. Aqui me despeço.
Marcelle.
domingo, janeiro 18
"A PIOR VONTADE DE VIVER"

" Todos são tão compreensivos, aceitam tão bem suas escolhas, torcem por tudo que você faz, não é mesmo? Desde de que você faça o que esta no script. Que siga o que foi determinado no roteiro, aquele que foi escrito sabe-se lá por quem e homologado no instante mesmo em que você nasceu. Mas e quem não quiser seguir esse script?
Em dezembro próximo, serão completados trinta anos da morte da escritora Clarice Lispector, que entendia de subversões emocionais. Fui convidada a participar de um evento que a homenageia, em Porto Alegre, e em função disso andei relendo algumas de suas obras e encontrei no conto "Amor", do livro "Laços de Família", uma de minhas frases prediletas. Assim ela descreve o sentimento da personagem Ana: "Seu coração enchera-se com a pior vontade de viver". Ela é complexa, angustiante, subjetiva e intensa. Ela, a pior vontade de viver. A que não está disposta a negociar com a vontade dos outros.
No entanto, essa que foi chamada a "pior vontade" pode ser também uma vontade genuína e inocente. É a vontade da criança que ainda levamos dentro, entranhada. É o desejo de açucar, de traquinagem, de fazer algo escondido, de quebrar algumas regras, de imitar os adultos. A "pior" vontade é curiosa, quer observar pelo buraco da fechadura e depois, mais ousadamente, abrir a porta e entrar no quarto proibido. A "pior" vontade é a de não se enraizar, não assinar contrato de exclusividade, não firmar compromisso, não render-se ás vontades fixas, apenas às vontades momentâneas, porque as fixas correm o risco de deixar de serem vontade para se transformarem em vaidade - como se sabe, há sempre aquelas que se envaidecem da própria persistência.
A "pior" vontade não quer ganhar medalha de honra ao mérito, não quer posar para fotografias, não quer completar bodas de ouro nem ser jubilada. A "pior" vontade não faz a menor questão de ser percebida, ela quer ser realizada. É quando você sabe que tomarão como agressão, mas arrisca. Aqui, cabe lembrar: apenas se sentem agredidos aqueles que te invejam. A vontade oficial, a vontade santinha, a que não causa incômodo é a outra, a aprovada pela sociedade, a que não leva em conta o que vai no seu íntimo, e sim a opinião pública. É a vontade que todos nós, de certa forma, temos de mostrar para os outros que somos felizes, sem saber que para conseguir isso é preciso, antes, ter a "pior" vontade, aquela que faz você descobrir que ser feliz é ter consciência do efêmero, é saber-se capaz de agarrar o instante, é lidar bem com o que não é definitivo-ou seja, tudo.
É com essa "pior" vontade de viver que você atrai os outros, que seu magnetismo cresce, que seu rosto rejuvenesce e que você fica mais interessante. É uma pena que nem todos tenham a sorte de deixar vir à tona esta que Clarice Lispector chamou de a pior vontade de viver, que, secretamente, é a melhor. "
(Martha Medeiros)
Postado por Marcelle
Imagem: www.rpgonline.com.br/.../galeria/91188_Fogo.JPG
segunda-feira, janeiro 12
Meu Feliz Ano Novo...
"Essencial é ter paixões e amigos. Para acumular esses bens Vinícius de Moraes zerava-se, renovava seus votos a cada dia. Isso a custo altíssimo. O simples nunca foi fácil para quem tem um coração no lugar onde muitos possuem gelo. As pedras de gelo de Vinícius estavam onde tinham que estar, no seu copo. Entre sobreviver e viver há um precipício e poucos encaram o SALTO. Vinícius diria: - Vai, vai viver."
Juliana Gonçalves
Publicado por Marcelle, em agradecimento a tudo que esta amiga-irmã significa pra mim... Assim recomeço após o grande salto: aprendendo a viver com os que admiro tanto! Continuemos como Vinícius - ídolo comum. Zerando e deixando acelerar o que trazemos no peito, saboreando o gelo no melhor lugar dele... Custe o que custar... Porque é preferível viver que se esconder! E machucar-se que não saltar... As águas de Cabo Frio me entraram na alma!

Imagem: papagaio.files.wordpress.com/2007/04/mar.jpg
quarta-feira, dezembro 24
SONHAR É PRECISO

Se aos teus sonhos outros sonhos tu somares
Sob a espera da presença do irreal,
É porque estás além dos patamares
Dos arautos da frieza universal
Continua o teu sonho e não te ponhas
Na linhagem dos pétreos, sem sorriso,
os Anjos te assistem enquanto sonhas
E na terra te preparam um Paraíso...
Benditos sejam os sempre sonhadores,
Fiéis aos passes de mágicos atores,
Que transformam o devaneio em realidade
Quem não sonha do seu chão não tem ciúmes,
É incapaz de lutar contra os costumes
Que corrompem os ideais de Liberdade...
Olavo Drummond
Lute e realize seus sonhos.
Inove em 2009
Imagem: brisas.blogs.sapo.pt/16764
segunda-feira, dezembro 15
SE...

quando todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
e para esses, no entanto, achar uma desculpa.
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
e enganado, não mentir ao mentiroso.
e não ser bom demais nem pretensioso.
Se és capaz de pensar, sem que a isso só te atires,
e de sonhar, sem fazer dos sonhos teus senhores.
tratar da mesma forma a esses dois impostores.
Se és capaz de sofrer a dor de ver transformadas em armadilhas
todas as verdades que disseste.
e refazê-las com o bem pouco que te reste.
Se és capaz de arriscar numa única parada
tudo quanto ganhaste em toda tua vida.
resignado voltar ao ponto de partida.
De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
e dar seja o que for neles que ainda existe.
a vontade que te ordena: Persiste!
Se és capaz de, entre a plebe não te corromperes,
e entre reis não perder a naturalidade.
e a ambos poder ser de alguma utilidade.
Se és capaz de dar, segundo por segundo,
ao minuto fatal todo valor e brilho.
és um Homem, meu filho!
segunda-feira, dezembro 8
NÃO IMPORTA O RESULTADO...
... Just because "I'd put my spirit to the test..."!!!
And that's all...
Marcelle Araujo
domingo, novembro 16
F-O-T-O-G-R-A-F-I-A
Porque os amigos são as bençãos pra eu recomeçar...
Afeto em frente ao mar...
Aos meus amigos mais que irmãos, e irmãos mais que amigos...
Esta música:

Enchendo a casa de silêncio e preguiça
Nessas horas é que Deus deixa pistas
Pra eu ser feliz
Colorindo de saudade o meu quarto
Só aí vou ter certeza de fato
Que eu fui feliz
São os laços invisíveis que havia
As cores, figuras, motivos
O sol passando sobre os amigos

segunda-feira, novembro 10
Resposta (skank)

sábado, novembro 8
O Haver

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo...
Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.
Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.
Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só EU.
Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.
Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.
Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.
Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.
Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.
Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...
Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.
Vinícius de Moraes - devidamente modificado
pra pertencer a minha história e a esta varanda de verdades...
15/04/62
Marcelle Araujo.
Imagem: O Haver
Vinicius de Moraes img296.imageshack.us/img296/9825/colorceugv2.jpg380 x 304 - 18k

quarta-feira, outubro 15
A sorte está lançada...
O raio não cai duas vezes no mesmo lugar...
Em meios a tantos “desastres” – meu último “talento” adquirido segundo “amigos” próximos – encontro-me exausta!
Talvez pelos tragos excedidos nestes últimos três meses – sem “goles” de cerveja associados – sinto-me quase que em insuficiência respiratória chegando ao final do segundo tempo.
Estou perdendo. Eu, e provavelmente todos que me amam vão perdendo comigo, porque não há segundo tempo em jogo solitário, só em coletivo. Tênis não tem tempo pra acabar; perde-se pela circunstância... Eu, vendo o cronômetro correndo, infelizmente sei que só depende de mim, mesmo que faltem força, ânimo, coragem, e que falte ar! Misturam-se a possibilidade da perda para as circunstâncias e o peso de não perder sozinha, numa inefável maratona em que o tempo conta e me trai! Não posso contar com ele... Queria era reinventar esta partida apelando do que julgo inédito para as evidências.
No meu velho e bom basquete éramos cinco; cinco recriando juntos as circunstâncias, nos ajudando, nos encorajando, levando por vezes à derrota alguns desconhecidos do banco e o coitado do treinador que não tinha tanta culpa assim... Sim, perdíamos juntos, por “nossa” culpa, e muitas vezes para o tal cronômetro que nos roubava a chance do “quem sabe se”...; do “de repente se”. E também vibrávamos juntos, abraçávamo-nos como se pudéssemos ocupar o mesmo lugar no espaço e não nos coubéssemos mutuamente...
Mas, como nunca quis mesmo ser “um vencedor” descubro-me não mais atleta, imposta à um jogo de tênis e com cronômetro!!! Na arquibancada? Qualquer um de plantão a rir-se do desastre próximo; apostando da minha sobrevivência à minha humilhação.
No banco: os que também amo e aos quais ao menos eu devia devolver a vitória porque cada um quer dividir do jeito que pode algum lugar comum no espaço que ocupo – independente de abraços! Nas mãos: alguns destinos, um maço, um copo de coca light, a bola e uma imagem de Nossa Senhora. À minha frente nada mais que um ponto de interrogação!
Depende das circunstâncias e que não parem o cronômetro porque ainda não terminei... Sou mais que força, ânimo, mais que coragem, sono e ar. Talvez não tenha a oportunidade de terminar no tempo certo, mas vou tentar, mesmo que eu “termine” após o fim devidamente cumprido...
- Assim perderei, ou não, com a cabeça no lugar dela e não abaixo! Porque desastre é estar na arquibancada, de mãos atadas, torcendo contra como em rinha de galo... Não sou gladiador, nem sou galo...
Hoje é que aprecio mais os cavalos! Animal justo! Diria, elitizado... Corre contra o tempo e contra o vizinho mas não lhes põe os pés na frente... Aceita as circunstâncias... Mas sobre o mundo animal converso outro dia. Senão os leões me devoram e sou jogada em restos aos porcos. Agora tenho pressa. Preciso terminar antes do cronômetro; enquanto houver ar, empurrar para prorrogação...
Aos do banco:
- Não perdi ainda não! Segurem a medalhinha, tragam mais água, um isqueiro e um lençol. Lençol para vendar meus olhos se por acaso eu fizer um ace (como aquela velha cesta de três no último minuto) e isto for um tiro de canhão na arquibancada. Preciso vê-los arrasados não!!!
- Quero só continuar e espero que entendam!
Postado por mim - Marcelle - em 28/11/2006 e 15/11/2008
segunda-feira, outubro 13
Equívocos (1)

Depois da quarentena, pareceu-me insustentável a reprodução de jargões que saúdam a vida e a existência. O pior deles é o desejo de sucesso!
- Sobre suas possibilidades - Trata-se da consagração do indivíduo. O indivíduo moderno só o é se bem sucedido. Sim, pois longe da idéia de sucesso, frequentemente, este ser é tido como fracassado, sem identidade, sem legitimidade. Equipes bem sucedidas, existem! Mas, além de raras, quando acontecem, o destaque é para o chefe, seja este “Bernardinho” ou “Giba”, o mentor, ou o operacionalizador do sucesso. Pessoas, numa carreira “solo”, tem-se a expectativa, que sejam tão, ou melhor, do que na equipe. O sucesso é o coroamento do diferencial, exatamente o que nos torna indivíduos, nos tira do anonimato, e projeta no nome do “tal”, como “o cara”. O indivíduo que se entende pós-moderno, também vive os paradoxos desta busca, posto que esta coloca-se sem qualquer referência de valores ontológicos que a limitem.
- Sobre sua promessa – a busca pelo sucesso é permanentemente busca, nunca o sucesso alcançado. Sucesso para ser mantido, há de ser sempre busca, pois o repouso da realização, da satisfação do dever cumprido, compromete o próprio conteúdo do sucesso (se é que não se trata em verdade da busca do nada). Daí por que sucesso e realização nunca se encontrem. O alcance do sucesso é sempre a própria necessidade de colocá-lo num patamar superior.
- Ética - do ponto de vista ético, o sucesso, ou sua busca, tem produzido indivíduos ávidos e capazes de apenas auto-reconhecimento. Paira sobre o ambicioso por sucesso a crença, ou pelo menos o marketing, de se ver sempre superior aos outros, o que em tese justifica a projeção do bem sucedido. Estes narcisos esquizofrênicos pelo “topo”, ou por ser “top”, não fazem outra coisa de suas vidas a não ser esta luta louca para estar acima de. Tal luta leva a uma total negação das relações inter-pessoais. São pessoas solitárias, cuja manutenção da relação no tempo só confirma o quem é por mim, ou o quem é contra mim. A busca do sucesso tem feito pessoas excessivamente egocentradas e incapazes de partilhar seu melhor com quem quer que seja. São verdadeiros monstros marcados pela hipertrofia do próprio umbigo, cujo reconhecimento do “outro” só tem sentido se for degrau para a ascensão própria.
- Sobre o fracasso – a busca insana pelo sucesso leva a negação do fracasso se estender ao erro. É estranha a necessidade de virar páginas, quando o erro poderia ser reciclado. Erros, que todos são passíveis de cometer, são loucamente escondidos pelos que ambicionam o sucesso. Nele, no erro, não se pode tocar, nem que para isto um mundo de delírio, de pura marketagem, seja construído para desviar os holofotes imaginários do candidato ao podium. Neste caso, a luz-holofote, ao invés de clarear, cega e só deixa enxergar a partir da narrativa do canto da sereia.
Na mitologia cristã, há um momento de pura criatividade narrativa para explicar a ordem do mundo. Falo do momento que Eva oferece a maçã a Adão, e este, fisgado, mergulha no pecado original. Há muito já se sabe que o mito, qualquer um, inclusive do pecado original, é uma narrativa, cheia de alegorias,que admite diferentes conteúdos às imagens postas, para cada cultura que a perpetue.
No caso do mito do paraíso, ao longo da Idade Média, a maçã assumiu o conteúdo da luxúria, da escuta aos desejos da sexualidade. A maçã incorporou a idéia do sexo, cujo controle correspondia a submissão das mentes àquele modelo de sociedade teocêntrica.
No séc. XIX, a maçã ganhou outro conteúdo, o de conhecimento... “comerás, e sereis como deuses”. O conhecimento científico, naquela sociedade de pleno elogio a potência humana pela ciência, passou a substituir a luxúria como forma de controle nas relações sociais.
Hoje, penso que este mesmo mito já admite outras variações. A maçã pode ser entendida como o SUCESSO, só que neste caso, a relação entre Adão, Eva e a Serpente há de ser reescrita, pois quando chegar a hora destas figuras serem expulsas do paraíso, por terem, sugerido, tocado e mordido a maçã, sequer o companhia e o calor de umas por outras há de haver.
Márcia
sexta-feira, outubro 10
Quando volto
Existe um lugar... onde seleciono o que respiro. Em que diversifico as sensações da alma, vario rápido de lugar sem precisar de avião, sem contar com relógios me vigiando... Viajo pra lá de vez enquando... Não me resta muito tempo pra ir buscar lá as forças que me restauram... Meu tempo me empurra a dormir quando os ponteiros me permitem... Ponteiros apressados deste mundo injusto, desta verdade crua, desta distância cruel de tudo que vivi e guardo!
Às vezes me decido a voltar lá... Me custa mais que passagem, mais que dinheiro, mais que estrada... Insisto a me humilhar indo lá... Já que aqui é tão impossível mudar. Não, não posso mudar lá também! É imutável, mas resgato o que quero a hora que posso! Ninguém decide por mim... Escolho a sós. Busco sozinha. Encontro paz!
Porque não só de dor se esvai minha ida... Mas de uma fuga perfeita! No que construí sempre junto com, ao lado de, ao invés disso, apesar daquilo outro... É de sabedoria e paz que embarco sem a suavidade dos sonhos... Os sonhos lá são o presente não condizente... É de saudade e impulso que me visto, sem malas... É de poréns e senões que insisto! E amo voltar a cabeça contra o vento, apesar do tempo, por cima da correnteza, debaixo desta chuva e de dentro deste frio...
Quando tudo está vazio, aprumo as asas, finjo o riso e olho... Só de olhar me acalma! Só de sabê-lo lá, me tranquiliza. Apenas em virar-me um pouco desta loucura que me abrasa a pele, me resguardo... Minha vida, minha história... De tudo que deixei me encontro sim, ainda que aqui, lá no passado!
quarta-feira, outubro 1
Quarentena

Esta porção ou número de 40 coisas.
40 bens de mercado?
É assim que me sinto!
A condição de minha humanidade
nunca esteve tão longe de ser HUMANA.
Quarenta dias, dada redução do tempo.
Os anos se tornaram dias, é assim que o valor reduz,
Alterando a percepção do tempo!
“Isolamento de algo,
ou suspensão de um processo
(p.ex., na tentativa de se assegurar de sua qualidade)”
Quarenta para se chegar à quarentena!
Significa ter chegado longe,
E é assim... longe de tudo!
Longe da humanidade! É a crise dos quarenta?
Quaresma!
É bem verdade...
Ainda em busca da Páscoa!
Que seja breve!





