quinta-feira, janeiro 25

Saudade!!!


"Mais que amigo, mais que irmão, a metade de mim que existe em você e a metade de você que habita em mim... Um TXAI seria capaz de dar sua vida no lugar do outro se necessário fosse!"
Palavras de interpretação do Milton Nascimento
Imagem retirada de: info.hmv.co.jp (que também consta no seu CD)
Saudades de você na varanda, TXAI!!!

Não digas nada...



Não digas nada!



Nem mesmo a verdade



Há tanta suavidade em nada se dizer



E tudo se entender



- Tudo metade



De sentir e de ver...



Não digas nada



Deixa esquecer



Talvez que amanhã



Em outra paisagem



Digas que foi vã



Toda essa viagem



Até onde quis



Ser quem me agrada...



Mas ali fui feliz



Não digas nada.




(Fernando Pessoa)

Medos


Dos medos

nascem as coragens

e das dúvidas

as certezas.

Os sonhos anunciam

outra realidade possível

e os delírios, outra razão.

Afinal de contas,

somos o que fazemos

para mudar o que somos.

Eduardo Galeano
Imagem retirada de www.centrodeterapias.com.br

segunda-feira, janeiro 15

Gravidade






Desce a noite, foge o tempo...

Na ausência de luz, meu sono pára,

Ali descendo, afogo meu desalento...


Descem os ponteiros e o tempo não passa,

Aqui fecho os olhos pra ver se esqueço,

Mas procuro são os seus pela madrugada...


Aí os abro correndo e sim: - estremeço,

Ainda ouço sua voz, sinto seus passos,

Pela noite de ontem eu perdia o começo,

Agora imponho o fim: nó firme que desato.


E desce a chuva, e permaneço seca,

Não sigo seus passos pela enxurrada,

Elevo meus olhos diante sua beleza

Mas o que vi naquele dia foi minha face espelhada...

Água desce e corre; eu que fico e desconheço

Qualquer pesar por minha chegada...

Desce a lua levando em breve este segredo

E apagam-se em mim os sons de suas risadas...


E passa o tempo e desce o medo

Que dentro de mim esteve entrevado,

E desço a serra e deixo o beijo

Que não pude te dar e minha boca amarga...


Descem as pálpebras, perco as lágrimas,

Afogo os lábios para que eu padeça,

Empurro as mágoas, procuro uma escada,

A noite é fria e estática permaneço;


E desce o corpo estraçalhado pela estrada,

E não vejo nada neste mero arremeço,

Não sinto mais frio, nem vejo tantas águas,

Que meus olhos desperdiçam e que me lançam do avesso...


Desce a alma como sendo depenada

E deixa ali as asas como sinal de apreço,

E reinventa-se uma canção dessas desenterradas,

Pra caber de distração no ato em que te esqueço,


E já desce o sol e o vento não passa,
Ele apressa meus passos, aperta meu peito,

Cachoeira de sonhos no barulho das águas,

Silencia minha dor como forma de respeito...


E atravanco o nado até que a correnteza leve

O suor de meu rosto, as forças de minhas mãos,

Até que devolva meu sossego nesta prece

E até que eu conceba seu adeus, seu perdão...


E as pedras me batem nas águas que descem

Já não sou mais eu, sem você...

O desespero some, a alma agradece

Não vejo mais água, vejo nada, nem por quê...


- Parti!
Marcelle
(Imagens retiradas dos sites: www.cameraviajante.com.br e loucuraenata.weblog.com.pt)

sábado, janeiro 13

Restos de mim



Quando talvez esta dor tamanha

Despejar-se como óleo por este chão

E se estes olhos de lágrimas se fecharem

E estes sonhos debulharem-se em ação,


Quando então esta história desrimada

Encontrar graça, sentido, razão

E as horas de sofrimento esgotadas

Devolverem-se em tempo, em forma de perdão...


Quando por ventura este grito já cansado

Alcançar alguém disponível pela imensidão

Ou de tão forte, seja este verbo calado

Ou entoado de réplicas em meu coração...


Quando não tarde o talvez não for dúvida,

Nem atalho, nem fuga pela dura jornada,

Ou seja o meu pranto o recanto já frio

E esta solidão restante, quase nada...


Que seja esta fé, esta força, desafio

Minha razão mais duradoura e festejada,

Seja este chão um suave caminho,

Quando talvez nem reste mais frio, solidão: reste nada.

(Marcelle - 1999)
Imagem retirada do site: www.larazon.es

quarta-feira, janeiro 10

Sobre a solidão...


"Quanta verdade você suporta?
Às vezes penso que sou a pessoa mais solitária do mundo. A minha solidão não depende da presença ou ausência de pessoas, pelo contrário, odeio quem me rouba a solidão sem em troca me oferecer verdadeira companhia!
(Nietzsche)

(Imagem extraída do álbum uol. Cobra Pínton/Malásia - com uma ovelha sendo digerida)

Postado por Márcia

terça-feira, janeiro 9

Minha janela para o mundo



Poema e insônia,

Este par que vez em sempre

Resolve marcar um encontro

Em meu corpo.



Despido, nu, e ainda não se viu

Embora com quase quarenta.

De novo neste degredo

Que busco para me encontrar

Em busca da criança que quero deixar-me ser.

Chamo Adélia, a Prado

E imploro que ela me ensine a soltar meus cães;

Mas não há cachorros, nem nada tão grande,

Há sapos, salamandras,

Anfíbios, plenos para água,

E inteiros para a terra.

Desejo as asas,

Mas as asas, quem me empresta

É a poesia.

É Vinícius quem as têm.

Que como ninguém,

Soube ser criança

Na medida em que crescia;

Quero poesia,

Poesia que acalanta

Que me traz de volta ao corpo

Este que nem me cabe,

Mas de novo me traz

Simplesmente por reverberar,

Estremecer o espírito.

E o verbo se faz carne.

Quero poesia,

É nela que deserto o haver

O haver que me nina

O haver que me encoraja;

O haver e o simplesmente ser.

(Márcia, insone...)

O haver


Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura

Essa intimidade perfeita com o silêncio

Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo

– Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo

Essa mão que tateia antes de ter, esse medo

De ferir tocando, essa forte mão de homem

Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos

Essa inércia cada vez maior diante do Infinito

Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível

Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento

Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade

Do tempo, essa lenta decomposição poética

Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio

Numa catedral em ruínas, essa tristeza

Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria

Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história...

Resta essa vontade de chorar diante da beleza

Essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido

Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa

Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado

De pequenos absurdos, essa capacidade

De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil

E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza

De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser

E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa

Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar

De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade

De aceitá-la tal como é, e essa visão

Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior

De mundos inexistentes, e esse heroísmo

Estático, e essa pequenina luz indecifrável

A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos

De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória

Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade

De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade

Pelo momento a vir, quando, apressada

Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante

Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto

Esse eterno levantar-se depois de cada queda

Essa busca de equilíbrio no fio da navalha

Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo

Infantil de ter pequenas coragens.


in "Poesia completa e prosa: "Poesias coligidas", Vinícius de Moraes

Márcia, com saudades do que eu ainda não vivi.



segunda-feira, janeiro 8

Sobre a corda bamba...




(...Eita ventinho bão na varanda,
sô!
Duas comadres, falando da vida,
na vida, na varanda...
hehehehehe.
É que na corda bamba da vida,
só sente a delícia do bônus,
quem assume o ônus.
O seu texto, Marcelle, é
"sem anestesia",
a intervenção cirúrgica
que
todos
passam
quando,
na vida,
se lançam a projetos sérios...
Eita ventinho
bão...)
ÔNUS
A esperança me chama,
e eu salto a bordo
como se fosse a primeira viagem.
Se não conheço os mapas,
escolho o imprevisto:
qualquer sinal é um bom presságio.
Seja como for, eu vou,
pois quase sempre acredito:
ando de olhos fechados
feito criança brincando de cega.
Mais de uma vez saio ferida
ou quase afogada,
mas não desisto.
A dor eventual é o preço da vida:
passagem, seguro e pedágio.
Lia Luft
Postado por Márcia

sexta-feira, janeiro 5

Paródia 360 graus



sistema_solar/sol/soho_sol.gif






Senhoras e Senhores


Para 2007, não obstante uma baita incoerência incruenta, crível e visível, se eu fosse fazer uma declaração de votos, eu diria:


- Usem filtro solar! Destes mesmos, das prateleiras!


Na verdade, sou frequentemente tomada por uma vontade frenética de falar e escrever sobre bens e filtros fora do mercado. Não resistindo este ímpeto maior que minha enorme vontade de ser e estar congruente, lá vai!


Usem filtro de pessoas. Amigos e amigas não são produto apenas de convivência. Este filtro nos ajuda a entender a relatividade das distâncias quilométricas e cronológicas.


Usem um eficaz coador de crenças. Não acreditem em tudo. Aperfeiçoe seu discernimento. Isto não é ser desconfiado.


Coem ordens, recomendações, necessidades e demandas. A obediência é um valor, mas jamais se deixem cegos.


Purifiquem suas emoções. Aborreçam-se menos. Emoções não filtradas evitam tumores no corpo e no pensamento.


Filtrem invejas, mas não se esqueçam que, grande parte do reconhecimento que fazemos do mundo, o fazemos a partir do que somos.


Selecionem as dores que tomam vocês inesperadamente. Sofram apenas pelo que vale a pena. Se for inevitável sofrer, que a dor não traga amargura, mas sabedoria.


Usem a peneira dos atos rotineiros, e deixe que vaze nela o pó da criatividade que faz brilhar nossos dias tão iguais!


Peneirem a incompetência alheia. Não deixem que esta atinja vocês. Porém, saibam que o melhor antídoto de combate a este mal é a luta contra as nossas próprias ignorâncias.


Retenha, embargue mesmo, toda forma de excesso, inclusive o excesso de zelo, de higiene, de palavras, de trabalho, de pudor, de gentileza e de alegria. O excesso é perverso sempre, até mesmo em qualidades que nos realizam e preservam, pois ele é a diferença entre a cura e o envenenamento. (Já sabiam os chineses, há muito, que a diferença entre o remédio e o veneno é a quantidade) Até a gentileza excessiva passa a ser demonstração de invariabilidade, ou seja, de que o mundo do lado de fora não é efetivamente vivido.


Só deixem passar na peneira o que não for grosseiro. O tosco nos leva às arraias da banalidade.


Filtrem também os pensamentos. F. Pessoa já dizia que “o pensamento é o adoecimento dos olhos”.


Coem as inutilidades das utilidades. Separem-nas, mas reconheça que ambos nos apraziam.


Por fim, filtrem as minhas palavras; é bom que saibam que ela é fruto de nostalgia.


Agora, por uma questão de uniformidade no procedimento, eu diria qual é a peneira que faz isto tudo que não se vende, mas que todos desejamos. A peneira é a lucidez, esta que todos somos portadores, mas que, porém, é constantemente arrombada pelas nossas paixões insanas, que aquecem o desejo que cega como um sol, que nos arde de tal forma, que é melhor que

- Usem filtro (deste) solar.
Márcia

quinta-feira, janeiro 4

NA CORDA BAMBA

A revista “Ser médico” da Cremesp – Conselho Regional de Medicina da cidade de SP – publicou no mês de dezembro a matéria “Deixar de ser médica” em que fala da jovem Haná, renomada acadêmica e residente da USP e posteriormente psiquiatra (com consultório montado) que desiste da medicina e a abandona para ser feliz. Inicia um curso de ciências da arte ainda médica do qual se afasta por não haver tempo para mais estudo, abandona a medicina e segue como documentarista para ter mais tempo de VIDA !



Redescobrindo Elis Regina declaro:

“Como se fora brincadeira de rodas”, ou história de ninar destas descabidas para crianças de 2 ou 3 anos, pra não dizer piada de péssimo gosto, retorno da caçada ainda com fome; - assustada e fugitiva daquele tigre imenso. Sim, como haveria de ser: chorosa, sedenta, faminta, medrosa! – Retornarei àquele lugar ou morrerei aqui de fome?

“O jogo do trabalho na dança das mãos vazias” é desalento; ameaça mais que o tigre... por maior que parecesse ser a fome dele. Porque “o suor dos corpos” no “suor da vida” se faz valer na diferença entre fuga e luta. Assim nos distinguimos entre nós. A honra está no caminho escolhido e no foco de interpretação.

Quando me aventurei era assim: “o animal que sabia da floresta” mas que se engana e se fere... E “redescobre o sal que está na própria pele” no próprio sangue que escorre e que bebeu pra tentar se reerguer. (O “lamber das línguas” é que ficou na memória, apenas... e “na magia das festas” que perdi!).

“Renascer da própria força” é bonito; da “própria luz” é ironia; da “própria fé” é ilusório! “Tudo principia na própria pessoa” quando constatamos que estamos num circo e que ter esperanças é ser palhaço. Performance é a palavra. Esforço é parto para se renascer “criança que não teme o tempo”, mas urge na experiência da libertação!

Mas ironicamente “tudo principia na própria pessoa”; talvez na própria floresta, talvez no reencontro com o mesmo tigre, na réplica da mesma luta de que fugi um dia, no “suor dos corpos na canção da vida” e no “suor da vida no calor de irmãos” em que a interpretação estará entre fugir e lutar, na empreitada abraçada antes e definidora de que “amor a se fazer é tão prazer que é como fosse dor”. (E dor sem anestesia). Renascer da própria fé ? - só no AMOR!

Parabenizo Haná pela coragem, mas prefiro antes tentar reinventar esta história, como que em brincadeira de roda, trocando as mãos seguradas, entoando outra cantiga, retocando a tal floresta... Insistir é a minha vitória. Ter esperanças é passado. Performance é a palavra. O parto há de acontecer – e sem anestesia.

Marcelle (Dez 06/Jan 07)

(Imagens retiradas dos sites: www.duiops.net e www.relatsencatala.com)

segunda-feira, janeiro 1

Brincar de Viver


Saudando 2007 em paz!
Que esta eterna brincadeira,
nos faça sempre crianças!

Brincar de Viver
Guilherme Arantes

Quem me chamou

Não vai querer voltar pro ninho

E redescobrir seu lugar

Pra retornar

E enfrentar o dia-a-dia

Reaprender a sonhar

Você verá que é mesmo assim, que a história não

tem fim

Continua sempre que você responde sim à sua

imaginação

A arte de sorrir cada vez que o mundo diz não

Você verá que a emoção começa agora

Agora é brincar de viver

E não esquecer, ninguém é o centro do universo

Que assim é maior o prazer

E eu desejo amar todos que eu cruzar pelo

meu caminho

Como eu sou feliz, eu quero ver feliz

Quem andar comigo

Vem !

Esta postagem tem o sabor especial de estarmos na varanda no mesmo lado da tela! Amém!


terça-feira, dezembro 26

Pensando 2007...

Levante


Marisa Monte
Composição: Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown, Marisa Monte, Seu Jorge


Nada de mais

Velhos sinais

Sobre a paisagem

Planos gerais

Rastros atrás

E avante, a estrada

Mas pra sacudir levante

Mais puro é o amor

Mais puro é o amor

Vejo os jornais

Não sei que lá

Não sei de nada

Tudo normal

Nas marginais

E nas fachadas

Mas pra sacudir levante

Mais puro é o AMOR

Mais puro é o AMOR

Imagens obtidas, na seqüência, em: http://nelsondaires.weblog.com.pt/arquivo/cat_enclosure.html; www.sandowmuseum.com e http://www.heidelfoto.de/akt/akt1/akt1jpg/akt035.jpg

sábado, dezembro 23

Inspirações natalinas IV: a derradeira!


Natal Tropical

Frei Betto (pelas mãos de Adélia)

Neste Natal, acolherei Deus no meu quintal, lá onde cultivo hortaliças e legumes, e darei a ele mudas de ora-pro-nóbis, coisa boa de se comer no ensopado de frango.

Mostrar-lhe-ei minha coleção de vitupérios e, se quiser, cederei a minha rede para que possa descansar das desditas do mundo.

Se Maria vier junto, vou presenteá-la com rendas e bordados trazidos do sertão nordestino, porque isso de aparecer senhora de muitas devoções exige muda freqüente de trajes e mantos, e muita beleza no trato.

Que venha Deus, mas venha amado, pois ando muito carente de dengos divinos. Não pedirei a ele os cedros do Líbano nem o maná do deserto. Quero apenas o pão ázimo, um copo de vinho e uma tijela de azeite de oliva para abrilhantar os cabelos. Cantarei a ele os cantos de Sião e também um samba-canção.

Tocarei pandeiro e bandolim, porque sei das artes divinas: quem pontilha de dourado reluzente o chão escuro do céu, e provoca o cintilar de tantas luzes, faz mais que uma obra, promove um espetáculo. Resta-nos ter olhos para apreciar.

Imagem obtida em http://www.apbp.com.br/cartoes_natal.asp

Inspirações natalinas III








Fiz deste poema a minha saudação de Feliz Natal deste ano de 2006.

Explico: há muito, o nascer e o morrer, são binômios inseparáveis na minha vida, ao contrário de dois momentos distintos: o inaugural e o derradeiro, dos quais originam certidões e rituais.

Ressignificar a morte, exigiu de mim, também ressignificar o nascimento.

Se nasço para algo, para outrem morro! Não há nascer sem renúncias! Não há conquistas, sem desapego!

Ainda penso que o melhor Natal é quando o Cristo, numa mística, em mim nasce!

Para pensar que isto é humanamente possível, tenho como modelo Francisco de Assis, grande natalino cristão!

Trazer o natal para dentro de mim, isto que me modifica!

Que em 2007 saibamos "velar, falar baixo, pisar leve, dizer uma canção sobre o berço" em que ninamos os nossos sonhos!

Que cada vez mais aprendamos discernir sobre o que deve morrer, para que um outro nasça! Discernir por quem, ou pelo quê é digno sofrer, para que, não obstante a tristeza, sejamos felizes!

Acho que era Drummond que dizia que a tristeza dele não se opunha à felicidade. Assim quero aprender a ser. Uma feliz triste pelo que vale a pena!

Feliz enquanto substantivo e triste como adjetivo, mas só pelo que é merecido e necessário.

É o que eu desejo para todos e todas, especialmente para mim mesma: este aprendizado natalino (curso ininterrupto e presencial), para que faça sentido, e seja para mim digno, estar por aqui!
Álbum de fotografia UOL.

Companhia
Pilobolus.
Poema de Natal

Vinícius de Moraes

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos...
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos...
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, verA noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai.
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte ...
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem;
da morte, apenas
Nascemos, imensamente!

Imagem obtida pelo telescópio Hubble. Álbum UOL. Trata-se da estrela Pismis 24-1, uma integrante jovem e brilhante de um conjunto de estrelas chamado Pismis 24, que fica a 8.000 anos-luz da Terra.Medidas iniciais atribuíram a ela uma massa de cerca de 200, possivelmente 300 vezes a do Sol, um volume extraordinariamente alto, pois estrelas desta massa normalmente ocupam partes do cosmos que são coalhadas de estrelas. Novas observações de uma equipe de astrônomos chefiada por Jesus Maiz Apellaniz, do Instituto de Astrofísica de Andaluzia, na Espanha, mostraram que a Pismis 24-1 é, na verdade, uma estrela dupla e muitos acreditam que seja tripla. Nem os grandes astros são solitários, como por vezes parecem!

Inspirações natalinas II



Memórias



De quando eu nasci


Não me recordo o anjo que me veio


Chego a me perguntar se


Naquela madrugada de 68


Havia algum anjo


disponível.


Nasci entre tremores de terra na planície,


Mimos exóticos de


jacaré domesticado por meu avô


E perdas sentidas do gato eletrocutado e
acudido debaixo do chuveiro.



(Havia um certo “ar” de eletrocussão, o gato era apenas um prenúncio)



Vésperas do AI-5


Ditadura desmascarada


Pos factum do maio francês


Cujas leituras tão díspares


Marcam ainda meu ser.



O anjo que me assistia


Não era nem safado, nem torto,


Certamente!


Penso que, talvez rouco, moco


Pois seu decreto ainda não escutei.



Na moca-louca aventura de viver


Aprendi a fazer-me surda


Pois nem toda palavra que pinga


É fonte de florescer.



Também,


Nem toda inaudição é nada.


Por vezes o silêncio comunica,


Por quem o faz, ou por quem o recebe.


Desprezo às palavras do anjo?


Imagina!?


Controle da sede da palavra que não chega!


Palavra-inteira, palavra-mundo,


Palavra-AMOR, que me sacia e liberta.

Márcia, 22/12/06.

Imagem obtida em: http://dali.urvas.lt/page18.html

Geopoliticus Child Watching the Birthof a New Man

(Criança geopolítica assistindo o nascimento do Homem Novo) Fantástica tela de Salvador Dali.

Inspirações natalinas I

Imagem do Rio Paraíba do Sul retirada de: www.geology.hpg.ig.com.br




Meia Luz


Nasci sob os auspícios da constelação de Libra.


Também estava proscrito o crepúsculo de Câncer.


Nesta hora dois decursos de equinócios me marcaram


Sou astral, do sul, meridional.



A fotofobia é marca do corpo


Nascido e projetado à meia luz.


Minha aurora é libriana,


No primeiro ciclo primaveril.



Minha alvorada é canceriana,


No último ciclo outonal.


Olhos sensíveis, exigentes de penumbra.


Luz demais me ofusca.



À meia luz tudo é desejo, querer saber.


Assim nasci,


Sob a constante busca do equilíbrio.


E morro a cada descarte do que em mim excede.



Machado quase me leva com seu triangular primaveril.


Mas Drummond adverte-me autunalmente:


“Em maio tantas vezes morremos”.


Prefiro então o frescor vernal:


“Em setembro tantas vezes nascemos”.



Abaixo do Equador,


Sou filha da bacia nova, novíssima!


Litorânea, de limite.


Plástica, dobra-se aos meus olhos.



Na planície nova, há brisa ainda,


E eu dobro-me diante dos seus ares.


Sou como sedimentos aluvionais.


Ainda há muito a ser moldado!



“Oh, Rio Paraíba dos meus sonhos!


Leva a minha mágoa para o mar...”


Sou grumossolo, argila.


Rocha maleável, se molhada, e flexível!


Dureza é minha propriedade seca.



Sou também rocha secundária, e


Disto me orgulho!


Sou derivada e não derivante.


E isto me põe em movimento.



Do nascente ao poente.


E quando poento, poeto, ponho fim na eternidade.


Não me repito.


Sou sendo, poendo as cordas do universo,


Que me faz verso, que me faz prosa.



Márcia, 22/12/2006

sexta-feira, dezembro 22

Saudades...


Veja Bem, Meu Bem

Los Hermanos
Composição: Marcelo Camelo


Veja bem, meu bem

Sinto te informar que arranjei alguém

pra me confortar.

Este alguém está quando você sai

E eu só posso crer, pois sem ter você

nestes braços tais.


Veja bem, amor.

Onde está você?

Somos no papel, mas não no viver.
Viajar sem mim, me deixar assim.

Tive que arranjar alguém pra passar os dias ruins.


Enquanto isso, navegando vou sem paz.
Sem ter um porto, quase morto, sem um cais.

E eu nunca vou te esquecer amor,

Mas a solidão deixa o coração neste leva e traz.


Veja bem além destes fatos vis.

Saiba, traições são bem mais sutis.

Se eu te troquei não foi por maldade.

Amor, veja bem, arranjei alguém

chamado saudade.



Márcia (imagem disponível em http://pensadora2.blogs.sapo.pt/arquivo/abraco.jpg)

domingo, dezembro 17

Saudades da Varanda e reencontrando A. Prado

A face de Deus é vespas
Queremos ser felizes.
Felizes como os flagelados da cheia,
que perderam tudo
e dizem-se uns aos outros nos alojamentos:
'Graças a Deus, podia ser pior!'
Ó Deus, podemos gemer sem culpa?
Desde toda a vida a tristeza me acena,
o pecado contra o Vosso Espírito
que é espírito de alegria e coragem.
Acho bela a vida e choro
porque a vida é triste,
incruenta paixão servida de seringas,
comprimidos minúsculos e dietas.
Eu não sei quem sou.
Sem me sentir banida experimento degredo.
Mas não recuso os marimbondos armando suas caixas
porque são alegres como posso ser,
são dádivas,
mistérios cuja resposta agora é só uma luz,
a pacífica luz das coisas instintivas.
Adélia Prado

domingo, dezembro 10

Este foi o drible mais interessante que eu já vi...


... quem me dera reproduzi-lo sempre em minha própria vida!

Em nome da paz celestial...

Márcia

(desconheço a autoria da imagem)

Escreva a sua História...


Pedro Bial

Escreva a sua história na areia da praia,

Para que as ondas a levem através dos 7 mares;

Ate tornar-se lenda na boca de estrelas cadentes.

Conte a sua história ao vento,

Cante aos mares para os muitos marujos;

cujos olhos são faróis sujos e sem brilho.

Escreva no asfalto com sangue,

Grite bem alto a sua história antes que ela seja varrida namanha seguinte pelos garis.

Abra seu peito em direção dos canhões,

Suba nos tanques de Pequim,

Derrube os muros de Berlim,

Destrua as cátedras de Paris.

Defenda a sua palavra,

A vida nao vale nada se você nao viver uma boa história pra contar.

Imagens disponíveis em http://blogrevolt.blogs.sapo.pt/ e http://www.terra.com.br/voltaire/mundo/muro.htm

Não faz muito tempo eu, Márcia, ouvindo uma coletânea de poesias, pensei: se eu der isto para a Adélia era vai adorar. Pensei justament quando houvia esta poesia. Hoje, ela me enviou sugerindo que eu aqui postasse. Aí está! É a nossa cara!